ECOPARQUE INDUSTRIAL VER-A-VIDA

Gesto Arquitetura, Benevides, PA, 2010/2014

Tudo começou com um concurso fechado conduzido pel a empresa Natura, que chamou escritórios de arquitetura para propor um projeto para sua nova fábrica,  no Estado do Pará."Entregamos um caderno" fala Newton Massafumi,  sócio do escritório Gesto Arquitetura, assustado ao ver maquetes grandiosas sendo entregues na data estipulada. Passaram da primeira fase dois escri tórios sendo o Gesto um deles, que tiveram 30 dias para afinar a proposta e apresentar para uma banca­ júri .O escritório não só passou para a segunda fase como levou o projeto.

 

"Isso foi  no segundo semestre de 2010",  conta Tânia Parma,  também sócia do escritório. De lá para cá muita água passou pela baía de Belém até chegarem à construção da primeira fase de implantação do projeto.  Para conseguir dar conta do recado ­ um lote de 178 hectares,  mais ou menos 144 campos de futebol a estratégia foi fazer por partes. Primeiro foi criado um Plano Diretor de Ocupação que definiu eixos,  setores e a parte destinada à construção. "A ideia da Natura era fazer um parque industrial em que a palavra chave fosse simbiose",  explica Newton.

Cortes 

Corte BB

Corte DD

Corte CC

Cortes Marquise

Cortes

Corte AA

ECOLOGICAL ECONOMY


It all began with a closed competition run by the Natura Corporation, which called on architecture offices to propose a project for their new factory, in Pará State. The architects at the GestoArquitetura firm passed in the first phase and took the project into the final selection. To deliver on the project - a 178 hectare lot -, the team created a Master Occupation Plan that defined axles, sectors and a part allocated for construction. Other industries are to be installed in the future on the same grounds, and lotting was planned for this by allotting 30,000 m², on average, for each industrial ground area. The objective is for production to positively interact between the industries, such as, by exchanging raw material with each other. The industries will have common space for leisure, sports, activities, services and flows of employees and visitors. A self-sufficient zone: the closed production condominium.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

One unique constructive element organizes all of the public programs: called icon by the architects, is composed of repeated pieces of laminated wood arranged in a circle, which are open at the top and produce shade, like a tree. It serves as a covered relaxing area and for the activities of the diverse building constructions. "It is a captivating element. Like trees, it captures sunlight and rainwater," clarifies Newton. The water is stored in tanks for reuse and the sunlight is transformed into lighting energy. Two other axles were created from North to South to provide access to the productive lots. The mobility project was made insomuch as to separate the different flows. Trucks arrive via exclusive roads, which connect to the loading and unloading areas of the plants. Private automobiles and buses their own parking lots and do not circulate about the grounds. Internal employee and visitor circulation is made by electric cars and bike paths, provided with bike racks ever so often, in addition to, of course, the treeline pathways for pedestrians.

No mesmo terreno devem ser instaladas outras indústrias no futuro, e para isso foi planejado um loteamento deixando em média 30 mil m² para cada terreno industrial. O objetivo é que a produção entre as indústrias interaja de maneira positiva, trocando matéria-prima umas com as outras, por exemplo. Mas, principalmente, as indústrias vão ter em comum o espaço de lazer, esportes, atividades, serviços e fluxos dos funcionários e visitantes. Uma zona autossuficiente: o condomínio fechado da produção.

 

Situado em Benevides, uma cidade de aproximadamente 50 mil habitantes a 25 km da capital Belém, o empreendimento está em uma zona carente de serviços públicos. "Não existem creches na cidade", conta Tânia, algo que definiu a necessidade de prover facilidades para os funcionários. A área comum do empreendimento conta com cozinha, restaurante, ambulatório, quadras, academia, churrasqueira, teatro de arena, núcleo de eventos e centro tecnológico, além da creche.

 

Um elemento construtivo único organiza todos os programas públicos: chamado de ícone pelos arquitetos, é composto por peças de madeira laminada repetidas e arranjadas circularmente, que se abrem no topo e produzem sombra, como uma árvore. Serve de cobertura de descanso e para as atividades dos diversos edifícios. "É um elemento captador. Como as árvores, ele capta sol e a água das chuvas", esclarece Newton. A água é armazenada em tanques para reúso e a luz do sol é transformada em energia para iluminação. "O sol fica a pino muito rápido nesta região, o melhor é fazer algo que funcione como um chapéu", explica Milton Granado, consultor de conforto ambiental.

 

O Plano Diretor faz referência ao urbanismo moderno das cidades planejadas, como Brasília. Mas seus autores dizem que pretendem ir além. "Com a proposta de junção das atividades de uso industrial e compartilhado com as faixas de incremento de vegetação pretendemos superar o urbanismo moderno", comenta Newton. O plano também define que as margens do terreno devem ser reflorestadas - o espaço estava completamente desmatado -, separando somente a porção central para ocupação. Foram traçados três eixos. O primeiro rasga o lote no sentido Leste-Oeste e conecta a estrada estadual, que passa em frente à portaria principal, e uma estrada vicinal nos fundos do terreno. Este eixo separa a atividade da indústria da atividade social, que se concentra na porção Sul. Dois outros eixos foram criados de Norte a Sul para dar acesso aos lotes produtivos. O projeto de mobilidade foi feito de maneira a separar os diferentes fluxos. Os caminhões chegam por vias exclusivas, que conectam com áreas de carga e descarga das fábricas. Os automóveis particulares e os ônibus têm estacionamentos próprios e não circulam pelo terreno. A circulação interna dos funcionários e visitantes é feita por carros elétricos e por ciclovias, providas de bicicletários a cada tanto, além, é claro, dos caminhos arborizados para pedestres.

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Edição 254 - Maio/2015

Plano Diretor

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Na primeira fase foram implantados os edifícios da portaria, creche, restaurante e ambulatório, além da fábrica da Natura. Para a definição do programa, áreas e fluxos da fábrica, os arquitetos trabalharam em conjunto com o departamento de projetos da empresa. Depois de muitas reuniões e ajustes para entender a dinâmica da produção, foi desenhado um prédio de administração, separado da produção, com 1,6 mil m² de área útil com as áreas de coordenação, sanitários, vestiários e segurança. Para o edifício de produção foram necessários aproximadamente 8,5 m² de área para estocagem, fabricação, embalagem e armazenamento dos produtos finais. Também foram construídos edifícios de apoio à produção, como o de extração de óleos, o de armazenamento de resíduos, casa de máquinas e manutenção. A ideia é continuar desenvolvendo o plano diretor e, na segunda fase, ampliar e implantar outros programas comuns, como academia, quadras, centro tecnológico e teatro.

 

O conceito que norteou todo o empreendimento, além da simbiose, foi a sustentabilidade e harmonia com o meio ambiente, por isso o nome de Ecoparque Industrial. A pesquisa começou com uma conversa com o Seu José, conta Newton: "Eu perguntei, Seu José, tem vento? De onde ele vem? Quando dá uma chuvarada, pra onde a água escorre?". O Seu José era o caseiro do terreno, e morava lá havia muitos anos. Os arquitetos aproveitaram para ter uma conversa com ele quando foram pela primeira vez visitar o lugar. Com estas informações em mente, começou a pesquisa mais high tech para a implementação de medidas ecológicas, que inclui o reúso da água da chuva, o resfriamento do ar da fábrica por dutos geotérmicos, ventilação e iluminação natural nas áreas de produção, o uso de materiais reciclados para construir, e um sistema de limpeza da água utilizada no complexo com os jardins filtrantes.

Este é um momento apropriado para que os arquitetos discutam, introduzam e reforcem técnicas de uso consciente dos recursos nos projetos. A questão da falta de água em várias regiões do Brasil e do mundo é uma alerta evidente: mesmo os recursos abundantes podem faltar se não forem usados conscientemente. Um dos motivos para que as indústrias se instalem na região de Benevides é justamente a facilidade do abastecimento de água, que é distribuída para toda a cidade por uma taxa única bem modesta. Mesmo assim, a água utilizada pela fábrica está sendo tratada, e a água da chuva, reaproveitada. Medidas que, longe de serem supérfluas, economizam dinheiro e recursos.

Com nome que faz referência ao icônico mercado Ver-o-peso, nova fábrica de sabonetes da Natura, a 25km de Belém, avança na pesquisa e na implementação sustentável de seu parque industrial.

O Plano Diretor foi pensado para receber diversas indústrias no futuro, de preferência empresas que possam fornecer produtos ou utilizar as sobras uma da outra. Foi pensado um sistema de mobilidade que divide os fluxos, com rotas para bicicletas e carros elétricos, e outra rota para entrada e saída de caminhões para carga e descarga de produtos.

DADOS DA OBRA

 

ÁREA DE PROJETO 21.860 m²
ÁREA POTENCIAL DE URBANIZAÇÃO 1.000.000 m²
ÁREA COMPARTILHADA 550 mil m²
ÁREA DE PRESERVAÇÃO 728 mil m²
ÁREA DE TERRENOS 450 mil m²
ÁREA TOTAL 1.728.000 m²
PROJETO setembro 2010 a dezembro 2012
TÉRMINO DA CONSTRUÇÃO (1ª fase) março de 2014